Em entrevista ao Agrofy News, Eduardo Brandão afirma que acordo com a Europa, avanço na Ásia e abertura de mercados podem elevar a receita do Brasil em embarques
Estratégia da Abrafrutas passa por diversificar destinos, reduzir a dependência de poucos compradores e ampliar a presença das frutas brasileiras no comércio internacional. (Foto-Fabio Manzini/Agrofy News
As exportações brasileiras de frutas podem se aproximar de US$ 2 bilhões até 2028, segundo projeção da Abrafrutas. Enquanto o setor acompanha com preocupação a possibilidade de novas tarifas impostas pelos Estados Unidos, o avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia e a abertura de mercados na Ásia reforçam a expectativa de crescimento das vendas externas.
O cenário ocorre após um ano histórico para a fruticultura nacional. As exportações brasileiras de frutas alcançaram US$ 1,45 bilhão em 2025, novo recorde pelo terceiro ano consecutivo. O resultado representou crescimento de 12% em valor e de 19,6% em volume na comparação com o ano anterior.
Parte desse avanço foi impulsionada pela parceria entre a Abrafrutas e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). Ao longo do ano, as frutas brasileiras foram promovidas em feiras internacionais, rodadas de negócios, ações de imagem e projetos estruturantes de exportação, ampliando a visibilidade do Brasil como fornecedor confiável e sustentável e aproximando produtores de compradores estratégicos.
Para o diretor-executivo da Abrafrutas, Eduardo Brandão, a palavra que melhor define o momento atual é “instabilidade”. Segundo ele em entrevista ao Agrofy News durante a Hortitec, o produtor exportador depende de previsibilidade para planejar investimentos, produção e embarques, mas tem enfrentado mudanças frequentes nas regras comerciais, principalmente no mercado norte-americano.
“Primeiro, Estados Unidos com essas confusões geopolíticas que para pressionar outras coisas afeta diretamente o produtor falando de frutas especificamente”, explica.
EUA preocupam setor com ameaça de novas tarifas
Atualmente, o setor monitora a possibilidade de uma nova taxação de 25% sobre algumas frutas brasileiras exportadas para os Estados Unidos. Após anúncios e recuos sucessivos por parte do governo norte-americano, produtos importantes da pauta exportadora seguem ameaçados, seundo Brandão.
No começo de junho, O governo dos Estados Unidos (EUA) propôs uma nova tarifa punitiva de 25% sobre importações brasileiras. A justificativa é que o Brasil adota práticas consideradas desleais em uma série de áreas, incluindo comércio digital, desmatamento ilegal, aplicação de leis anticorrupção e o sistema de pagamentos instantâneos Pix, citado pelos norte-americanos no âmbito da investigação.
“Nós conseguimos na negociação isentar dessa tarifa todas importantes na pauta de exportação dos Estados Unidos, como a manga, a banana, o papaia, mas ficou outras tão importantes quanto até mais importantes como a uva, o melão e a melancia, que serão taxadas de 25% caso a reunião do dia 6, o governo americano decida por adotar o indicativo”, afirma o executivo.
Hoje, os Estados Unidos respondem por cerca de 12% das exportações brasileiras de frutas. Por isso, qualquer alteração tarifária tem potencial de impactar diretamente produtores e exportadores.
“Nós estamos tentando com o governo, forçando com que o governo faça as tratativas diplomáticas para que a gente possa não ser afetado.”
Europa ganha competitividade com acordo Mercosul-União Europeia
Se os Estados Unidos representam incerteza, a Europa surge como a principal oportunidade para o setor. O bloco europeu concentra cerca de 70% das exportações brasileiras de frutas e passou a oferecer condições mais favoráveis após a assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia.
Com a nova condição, a taxa foi zerada, ampliando a competitividade do produto nacional frente a concorrentes que já operavam com vantagens tarifárias. “A uva, por exemplo, passou a ter taxa zero. A gente trabalhava com 12%, ela passou a ser zero.”
Outras frutas também deverão ganhar competitividade gradualmente. Entre elas estão o limão-tahiti, a maçã e o avocado, que passarão por processos de desgravação tarifária nos próximos anos.
Para o executivo, o acordo ajuda a compensar parte das incertezas enfrentadas no mercado americano.
“Nesse caso, como nos Estados Unidos é incerteza, lá é competitividade. Nós vamos melhorar muito a nossa competitividade no mercado europeu.”
Com esse cenário, a expectativa da Abrafrutas é ampliar significativamente as exportações brasileiras.
“Esperamos até 2028 chegar a quase 2 bilhões de exportação, estamos hoje em 1.5″, projeta ele ante os cerca de US$ 1,5 bilhão registrados atualmente.
Segundo o executivo, a redução das barreiras comerciais permitirá ao Brasil competir em condições mais equilibradas com países que já possuem acesso privilegiado ao mercado europeu, como Peru, Colômbia e México.
Ásia concentra aposta de longo prazo
Se a Europa representa a principal oportunidade de curto prazo, a Ásia é vista como a grande fronteira de crescimento para a próxima década. A estratégia da Abrafrutas, em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), tem sido acelerar a abertura de novos mercados na região.
“A gente tem pesquisa e BI que nos mostram que até 2030 48% do share da fruticultura mundial vai estar na Ásia.”
Entre os mercados prioritários estão China, Japão e Coreia do Sul. Nos últimos anos, o setor avançou na abertura de mercados para produtos como manga, melão e uva.
“Estamos abrindo esses mercados, estamos finalizando agora, abrimos a manga para Coreia do Sul, estamos finalizando agora a uva para Coreia do Sul, abrimos o melão para a China, abrimos a uva para a China.”
Questionado sobre qual mercado pode ser aberto nos próximos meses, Brandão apontou a uva brasileira para a Coreia do Sul como a negociação mais próxima da conclusão.
“Essa que a gente está esperando abrir nos próximos meses, talvez nos próximos 60, 90 dias, é a uva para a Coreia do Sul.”
A estratégia de diversificação também inclui mercados de menor porte, mas com potencial de crescimento. Segundo Brandão, o Brasil abriu recentemente o mercado da Costa Rica para o caqui paulista e já realizou os primeiros embarques da fruta.
“Abrimos em 4 meses e já exportamos Caqui Paulista para Costa Rica.”
Dependência de poucos mercados preocupa
Apesar das perspectivas positivas, a Abrafrutas avalia que a concentração das exportações em poucos destinos ainda representa um risco para o setor.
Atualmente, cerca de 70% das vendas externas têm como destino a União Europeia, enquanto o Reino Unido responde por aproximadamente 15% e os Estados Unidos por cerca de 12%.
“Se somar esses três aí, vai dar mais ou menos 80 e poucos por cento concentrado em três destinos. Para mim isso é um risco.”
Por isso, a abertura de novos mercados passou a ocupar posição estratégica dentro da entidade.
Logística ainda limita competitividade do Brasil
Além das barreiras comerciais, a logística continua sendo um dos principais desafios para o avanço das exportações brasileiras de frutas.
Segundo Brandão, os exportadores enfrentam dificuldades relacionadas aos custos de transporte, à disponibilidade de embarques e à dependência de rotas compartilhadas com outros tipos de cargas.
Como o volume exportado pelo Brasil ainda é inferior ao de concorrentes como Chile e Peru, os embarques de frutas normalmente ocupam apenas parte dos contêineres transportados pelos navios.
Na prática, isso reduz o poder de negociação dos exportadores brasileiros junto aos armadores. Em alguns casos, mesmo após o agendamento da carga, alterações operacionais podem impedir o embarque dos contêineres previstos, obrigando produtores a redirecionar a produção ao mercado interno e comprometendo relações comerciais construídas ao longo de anos com compradores internacionais.
O transporte aéreo surge como alternativa para produtos de maior valor agregado ou com menor vida útil, mas os custos são significativamente mais elevados. Enquanto o frete marítimo para a Europa gira em torno de US$ 0,58 por quilo, o transporte aéreo pode superar US$ 1,80 por quilo, reduzindo as margens dos exportadores.
O cenário reduz a competitividade do Brasil frente a concorrentes como Chile e Peru, que operam volumes maiores e contam com estruturas logísticas mais eficientes para atender mercados estratégicos, especialmente na Ásia.
A localização geográfica também favorece esses países em algumas rotas internacionais. Situados na costa do Pacífico, Chile e Peru possuem acesso mais rápido aos mercados asiáticos e embarcam volumes suficientes para operar navios dedicados ao transporte de frutas, sem depender de rotas compartilhadas com outros segmentos.
Para ilustrar a diferença de competitividade, Brandão faz uma comparação direta entre os principais exportadores da América do Sul. Segundo o executivo, os US$ 1,45 bilhão exportados pelo Brasil em frutas em 2025 equivalem aproximadamente ao faturamento obtido pelo Chile apenas com as exportações de cereja e pelo Peru somente com avocado, evidenciando o espaço para crescimento da fruticultura nacional.
A entidade também acompanha projetos de infraestrutura voltados à ampliação da competitividade logística do setor. Entre eles está a Rota Bioceânica, corredor que pretende conectar o Centro-Oeste brasileiro aos portos chilenos no Pacífico, reduzindo distâncias para mercados asiáticos. A expectativa é que iniciativas desse tipo contribuam para diminuir custos e ampliar a presença das frutas brasileiras em países como China, Japão e Coreia do Sul.
Fonte: Agrofy News



