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Produtores de maçã alugam colmeias para proteger nova safra

Florada no Sul do Brasil favorece o desenvolvimento dos frutos, mas excesso de chuva pode dificultar a polinização e afetar a produção – Os pomares de maçã de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul entraram em floração com a chegada da primavera. Agora, os produtores acompanham uma das etapas mais importantes da safra 2026/2027: a polinização da maçã, processo fundamental para a formação e o desenvolvimento dos frutos.

Para favorecer essa etapa, muitos produtores optaram pelo aluguel de colmeias. A estratégia amplia a presença de abelhas nos pomares e ajuda a aproveitar os períodos de tempo firme, especialmente diante da preocupação com as chuvas associadas ao El Niño.

Além disso, o inverno com temperaturas mais baixas e constantes favoreceu a quebra de dormência das macieiras. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Maçã (ABPM), o acúmulo de horas de frio nas principais regiões produtoras ficou acima da média histórica, contribuindo para uma florada uniforme e com bom potencial produtivo.

Abelhas ajudam a definir o potencial da safra – A florada marca o início de uma fase decisiva para a produção. No entanto, a presença de flores, por si só, não garante uma boa colheita. As macieiras precisam de polinização adequada para que ocorra a fecundação e, posteriormente, a formação dos frutos.

Nesse processo, as abelhas transportam o pólen entre as flores. Por isso, a presença desses insetos nos pomares contribui para o desenvolvimento das maçãs e influencia o potencial de produção.

Diante dessa necessidade, os produtores reforçam a quantidade de colmeias durante a floração. Assim, procuram aumentar as oportunidades de polinização enquanto as flores permanecem abertas.

Chuvas podem prejudicar a polinização – Apesar das condições favoráveis à florada, o clima preocupa os produtores. Períodos prolongados de chuva podem reduzir os voos das abelhas e limitar as visitas às flores.

Segundo a ABPM, a alternância entre dias chuvosos e períodos de tempo firme levou produtores a ampliar a presença de colmeias nos pomares. Dessa maneira, eles buscam aproveitar melhor as janelas de condições favoráveis à atividade dos polinizadores.

Entretanto, o aluguel de colmeias não elimina os efeitos das condições meteorológicas. O resultado também depende da duração das chuvas, da atividade das abelhas e das condições das plantas.

Por isso, os produtores ainda precisam acompanhar o desenvolvimento dos frutos para avaliar os resultados dessa estratégia.

Fixação dos frutos indicará os resultados – Nas próximas semanas, a avaliação do índice de fixação dos frutos deverá mostrar como a polinização contribuiu para o desenvolvimento da nova safra.

Essa análise é importante porque nem todas as flores se transformam em maçãs. Além da polinização, fatores como as condições climáticas e o desenvolvimento das plantas influenciam o resultado.

Enquanto isso, os produtores seguem acompanhando os pomares e se preparando para as próximas etapas do ciclo produtivo. A colheita das variedades Gala e Fuji está prevista para o início de 2027.

A expectativa da ABPM é de uma safra equilibrada em volume e com boa qualidade. Contudo, o desempenho efetivo só ficará mais claro à medida que os frutos se desenvolverem e as condições climáticas evoluírem.

Safra anterior bateu recorde no Brasil – O setor chega à nova temporada após uma produção histórica. Na safra 2025/2026, o Brasil colheu aproximadamente 1,6 milhão de toneladas de maçã, segundo dados divulgados pela ABPM.

Santa Catarina liderou a produção, com cerca de 830 mil toneladas. Em seguida, o Rio Grande do Sul registrou aproximadamente 710 mil toneladas, enquanto o Paraná respondeu por cerca de 50 mil toneladas.

Além disso, as exportações brasileiras de maçã alcançaram 48,6 mil toneladas em 2026, movimentando US$ 49,6 milhões, conforme os números apresentados pela associação.

Apesar desse avanço, os embarques ficaram abaixo da meta de 100 mil toneladas projetada pelo setor. Entre os fatores apontados pela ABPM estão os obstáculos comerciais e logísticos relacionados ao conflito no Oriente Médio.

A produção elevada também aumentou a disponibilidade da fruta no mercado interno e contribuiu para preços mais competitivos ao consumidor.

Agora, o desafio é transformar o potencial da florada em frutos de qualidade. Para isso, os produtores apostam no manejo dos pomares e na presença de polinizadores, enquanto acompanham o comportamento do clima durante as próximas fases da safra de maçã 2026/2027. *Matéria de Deuseane Queiroz/AgroEmCampo – 19/10/2026.

Boas práticas para proteção de polinizadores – O conceito de risco, baseado na relação perigo-exposição, constitui o cerne da abordagem de Boas Práticas Agrícolas, produzidas para mitigar o impacto de pesticidas sobre abelhas e outros polinizadores, constituído de práticas concretas e aplicáveis na propriedade rural. Trata-se de uma visão complementar: em vez de depender exclusivamente de restrições regulatórias, que operam no plano de políticas públicas nacionais, mais rígidas, e em escalas de tempo de anos, institui-se uma abordagem prática para a mitigação de riscos no campo.

As boas práticas agrícolas capacitam os produtores a reduzir substancialmente o risco de mortalidade de abelhas associado às aplicações de pesticidas que sejam efetivamente necessárias, muitas vezes a um custo adicional insignificante. Temos observado que mais de 90% dos casos documentados de mortalidade de abelhas, relacionada ao uso pesticidas em lavouras de soja, não decorrem do perigo inerente dos pesticidas utilizados. O motivo principal tem sido a inobservância das regras de tecnologia de aplicação, o que aponta o foco da redução de riscos diretamente para o comportamento do agricultor e de suas decisões de manejo.

Boas práticas – O agendamento de aplicações de pesticidas para períodos em que a atividade de forrageamento das abelhas é mínima representa uma boa prática das mais impactantes, e de custo zero para os produtores. A atividade de forrageamento da maioria das abelhas, de criação ou nativas, concentra-se pela manhã e no início da tarde. Assim, a aplicação de pesticidas no final da tarde ou à noite reduz significativamente o risco para os polinizadores.

Essa prática resulta em uma redução drástica da mortalidade por contato direto das abelhas, em comparação com aplicações realizadas nos horários de pico de forrageamento, mesmo quando se utiliza o mesmo ingrediente ativo, na mesma dose. Esse simples ajuste temporal – que não exige equipamentos adicionais, nem mudança de produto, e requer apenas alterações mínimas no cronograma operacional do produtor – pode reduzir expressivamente a mortalidade direta das abelhas.

Evitar a aplicação de agrotóxicos durante o período de floração da cultura constitui uma prática temporal complementar e igualmente importante, uma vez que uma cultura em floração representa o momento de maior atratividade da cultura – senão o único – para abelhas em busca de alimento e, consequentemente, o período de maior exposição potencial.

Deriva e delimitação da área aplicada – Um cuidado fundamental é evitar, a qualquer custo, a deriva da pulverização, que é o deslocamento não intencional de gotas de agrotóxicos para além dos limites da área tratada, atingindo habitats adjacentes, corpos d’água ou locais onde se encontram apiários, ou locais de abrigo e alimentação de abelhas nativas. A deriva é influenciada pelo tamanho das gotas, pela altura de aplicação, pela velocidade e direção do vento e pela estabilidade atmosférica. Ela pode ser substancialmente reduzida mediante a escolha de pontas de pulverização adequadas, que gerem gotas maiores e menos suscetíveis à deriva, a manutenção das barras de aplicação na altura mínima compatível com uma cobertura eficaz, e a não realização da aplicação sob condições de vento que excedam os limites recomendados.

O estabelecimento de faixas de amortecimento (ou zonas de segurança) não tratadas entre as áreas de cultivo e apiários, cercas vivas ou margens de campos em floração oferece uma camada adicional de proteção contra a exposição residual à deriva, com larguras de faixa calibradas de acordo com o método de aplicação e o equipamento utilizado. O protocolo de Boas Práticas recomenda um raio de coordenação de 3 km entre produtores de soja e apicultores, dentro do qual deve ser feito o aviso prévio sobre aplicações de agrotóxicos. Esse aspecto constitui uma boa prática de comunicação, e permite que os apicultores adotem medidas de proteção, como o fechamento temporário das entradas das colmeias, antes de uma aplicação planejada.

Pesticida e formulação – A escolha do produto e da formulação representa outra categoria de boas práticas que pode ser facilmente integrada às estruturas de decisão existentes no Manejo Integrado de Pragas, sob a orientação de um engenheiro agrônomo. Quando múltiplos produtos registrados oferecem eficácia comparável contra uma praga-alvo, a seleção do produto com o menor risco documentado para as abelhas reduz diretamente o componente de perigo na equação de risco, mantendo-se as práticas de redução da exposição.

O tipo de formulação também é relevante, independentemente do ingrediente ativo: formulações granulares e microencapsuladas podem apresentar riscos distintos em comparação com pulverizações líquidas, especialmente quando grânulos são confundidos com pólen ou material de nidificação por abelhas que fazem ninhos no solo – uma via de risco documentada para certas formulações de inseticidas aplicadas em culturas em floração, em estudos realizados na Europa. Já o tratamento de sementes com pesticidas é considerado um dos procedimentos mais seguros para os polinizadores.

Mistura em tanque – Evitar a mistura desnecessária em tanque – a combinação de múltiplos produtos fitossanitários, incluindo inseticidas, fungicidas e adjuvantes, em uma única aplicação – constitui uma boa prática com crescente embasamento científico, dado o potencial documentado de toxicidade sinérgica entre compostos aplicados simultaneamente. Estudos científicos demonstraram que a combinação de certos fungicidas com inseticidas, em concentrações realistas de campo, resultou em taxas de mortalidade de abelhas superiores às previstas pela toxicidade aditiva dos componentes individuais. Fungicidas inibidores da biossíntese de ergosterol foram identificados como sinergistas particularmente potentes da toxicidade de inseticidas piretroides e neonicotinoides, devido à inibição das vias de desintoxicação mediadas pelo citocromo P450, das quais as abelhas dependem para metabolizar compostos xenobióticos.

Portanto, evitar a aplicação simultânea de inseticidas e fungicidas, durante períodos em que as abelhas estão forrageando na cultura tratada ou em suas proximidades, representa uma medida de precaução fundamentada em um corpo crescente de evidências toxicológicas, sendo explicitamente incorporada às diretrizes de Boas Práticas Agrícolas desenvolvidas para produtores de soja brasileiros.

Informação e prática – A adoção cumulativa dessas Boas Práticas – nenhuma delas individualmente onerosa e várias sem qualquer custo direto – exemplifica um princípio mais amplo nas políticas de conservação de polinizadores: reduções substanciais nos danos a esses insetos podem ser frequentemente alcançadas não pela proibição de insumos agrícolas, mas pela aplicação mais cuidadosa e informada dos insumos que os produtores já utilizam.

Esse princípio fundamenta a estratégia de extensão e capacitação adotada pela Embrapa em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), após anos de testes e validação com lavouras e apiários comerciais, durante os quais ficou comprovada a ausência de mortalidade abelhas, para quem seguiu as boas práticas.

Os resultados desta prolongada pesquisa estão acessíveis em forma de cartilha, produzida pelo SENAR, que traduziu os resultados de pesquisas sobre as interações entre pesticidas e abelhas em materiais de treinamento acessíveis par download (bit.ly/3VhUUB9). Também disponibilizou um curso online voltado tanto para produtores de soja quanto para apicultores (bit.ly/3SXXEpN), com o objetivo explícito de alcançar a coexistência harmoniosa de duas atividades, econômica e ecologicamente interdependentes, na mesma paisagem agrícola. Informações adicionais também podem ser obtidas em publicações da Embrapa (bit.ly/4r4Pw3n). *Décio Luiz Gazzoni, engenheiro agrônomo, membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica e do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS)

Sobre o CCAS – O Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) é uma organização da Sociedade Civil, criada em 15 de abril de 2011, com domicilio, sede e foro no município de São Paulo (SP), com o objetivo precípuo de discutir temas relacionados à sustentabilidade da agricultura e se posicionar, de maneira clara, sobre o assunto.

O CCAS é uma entidade privada, de natureza associativa, sem fins econômicos, pautando suas ações na imparcialidade, ética e transparência, sempre valorizando o conhecimento científico.

Os associados do CCAS são profissionais de diferentes formações e áreas de atuação, tanto na área pública quanto privada, que comungam o objetivo comum de pugnar pela sustentabilidade da agricultura brasileira. São profissionais que se destacam por suas atividades técnico-científicas e que se dispõem a apresentar fatos, lastreados em verdades científicas, para comprovar a sustentabilidade das atividades agrícolas.

A agricultura, por sua importância fundamental para o país e para cada cidadão, tem sua reputação e imagem em construção, alternando percepções positivas e negativas. É preciso que professores, pesquisadores e especialistas no tema apresentem e discutam suas teses, estudos e opiniões, para melhor informação da sociedade. Não podemos deixar de lembrar que a evolução da civilização só foi possível devido à agricultura. É importante que todo o conhecimento acumulado nas Universidades e Instituições de Pesquisa, assim como a larga experiência dos agricultores, seja colocado à disposição da população, para que a realidade da agricultura, em especial seu caráter de sustentabilidade, transpareça. Mais informações no website: Link. Acompanhe também o CCAS nas redes sociais: Facebook:Link/Instagram: Link/LinkedIn:Link

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Fonte: Jornal da Fruta