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Como os agricultores enfrentam o frio rigoroso e garantem frutas mais doces e hortaliças durante o ano todo nas mesas da Serra

Enquanto o inverno favorece frutas como laranjas e bergamotas, verduras exigem cultivo protegido devido às geadas. Em Caxias do Sul, agricultores explicam quais são os cuidados necessários neste período para manter a produção ativa

Porthus Junior / Agencia RBS
Miguel mantém a produção de pimentões em estufa, mas destacou o alto custo e o cuidado necessário para manter o plantio.Porthus Junior / Agencia RBS

Apesar da chegada do inverno, as baixas temperaturas marcam o período de cultivo de culturas típicas da região de Caxias do Sul, como laranjas e bergamotas, além da produção de hortaliças em estufas que têm alto custo, mas conseguem manter o abastecimento das mesas durante todo o ano. Porém, os agricultores precisam enfrentar os desafios da estação, como a geada, excesso de chuva e a redução da luz solar, o que pode tornar o plantio e a colheita uma “loteria”.

Conforme o extensionista rural da Emater Thompson Didoné, a região da Serra tem propensão a ter uma produção expressiva de citrus (laranja e bergamota) devido aos microclimas, como as variações de temperatura, e, com isso, os frutos ficam mais doces.

— A fruta que está sendo colhida agora está bonita, bem colorida, doce e tem uma diferença grande da que vem de São Paulo, por exemplo. A nossa tem um equilíbrio maior entre açúcar e acidez, que agrada o paladar do consumidor — explica Thompson.

A região também é uma forte produtora de olerícolas, ou seja, verduras, mas a maioria é cultivada em ambiente protegido, como estufas, devido às baixas temperaturas.

— Caxias do Sul e o entorno formam a região de maior produção de olerícolas do Estado. Então, temos produção de alface, brócolis, cenoura, mas a maioria sob cultivo protegido, ou seja, em estufas, porque são regiões sujeitas a geada e, evidentemente, as plantas são prejudicadas — comenta.

Porém, Thompson explicou que as estações meteorológicas vêm ajudando o produtor a ter mais controle da produção, principalmente na questão das horas-frio.

— A questão da geada não tem muita solução: ou está em estufa ou não há muito o que fazer. Mas o grande benefício das estações meteorológicas agora no inverno é que elas marcam a quantidade de horas-frio abaixo de 7,2°C ou abaixo de 10°C, porque esse acúmulo de horas-frio é necessário para que haja uma excelente brotação, falando em frutíferas, na primavera. Se não houve o acúmulo de horas-frio necessário, então o agricultor tem que adotar um manejo diferente e, sendo assim, consegue salvar a sua produção — esclareceu.

Plantações em estufas: uma produção com “mais presença”

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Miguel Pedrotti produz pimentões em estufas há mais de anos.Porthus Junior / Agencia RBS

Para o produtor Miguel Pedrotti, 64, a renda vem das vendas no Ponto de Safra de verduras mantidas em estufas, como pimentões, alface, couve-flor, temperos e outras variedades. Com a ajuda da esposa, Margarete Salvador Pedrotti, 66, ambos cuidam da propriedade, localizada em Ana Rech.

Segundo Pedrotti, a escolha da produção em estufas foi devida ao fato de a região ser muito chuvosa. Apesar do alto custo de manutenção, que pode chegar a R$ 5 mil somente para a troca dos plásticos, o produtor explicou que, dessa forma, é possível ter mais controle da plantação e evitar a perda das hortaliças.

— A estufa é boa, em primeiro lugar, pela proteção contra a chuva. Não é nem tanto pelo frio, mas a alface, por exemplo, se recebe excesso de chuva em um dia, começa a apodrecer porque não há controle da quantidade de água que está recebendo. Com a estufa, uso o sistema de gotejo, controlo a adubação e, assim, consigo manter a produção — explica.

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A produção em estufas é mais cara, mas mantém a produção protegida.
Porthus Junior / Agencia RBS

O agricultor também acredita que a cultura em estufas significa “mais presença” e, com isso, as hortaliças rendem mais.

— É uma cultura com mais presença. Ela forma, como um pé de alface, uma planta superior à produzida a céu aberto, mais vigorosa e mais saudável, com menos necessidade de tratamentos — diz Pedrotti.

Além disso, Pedrotti explicou que o inverno colabora para que os produtos sejam ainda mais ecológicos, pois o frio afasta os insetos e, com isso, não há tanta necessidade de fazer tratamentos com agrotóxicos.

— Os pimentões que estou colhendo agora eu não trato há meses. Como chegou o inverno, os insetos não atacam, então não faço tratamento, apenas adubação e irrigação, tudo de forma mais natural — comentou.

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Margarete auxilia o marido nas plantações, mas foca na organização dos produtos para a feira.Porthus Junior / Agencia RBS

Porém, nem tudo é perfeito. A geada é um dos maiores inimigos das plantações na Serra. Mesmo com a proteção das estufas, elas ainda são atingidas e é preciso torcer para que o próprio tempo colabore para que sobrevivam.

— O que queima as plantas é quando amanhece, vem o sol e há geada sobre elas. Aí o sol bate e queima a folha. Sei que seria melhor que as estufas fossem fechadas ao redor, porque o calor fica retido e a planta se desenvolve muito melhor. Só que isso favorece os insetos pelo excesso de calor e, então, exige mais tratamentos, tornando a estrutura mais cara de manter. Meu foco foi mais proteger da chuva mesmo — explica Pedrotti.

Mais doces e em grande quantidade

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Sérgio Damin trabalha com diversas variedades de citrus em sua propriedade.
Neimar De Cesero / Agencia RBS

Com mais de cinco variedades de bergamota e quatro de laranja, o produtor Sérgio Damin, 72, trabalha com a família em uma propriedade de Santa Lúcia do Piaí. Segundo Damin, são os produtos que mais vendem no Ponto de Safra durante o inverno.

— Vendemos bem na feira. Começa agora e vamos até novembro, porque depois entram as variedades mais tardias. E, por causa da variação de temperatura, a fruta aqui da Serra ganha mais cor e mais sabor, ficando bem mais docinha — comenta Damin.

Mesmo sem realizar muitos tratamentos, optando por um cultivo mais ecológico, Damin ainda tem bastante resultado, colhendo de 25 a 30 caixas de frutas por semana.

— O tratamento é pouco. Não aplico muito produto para não deixar cheiro e, no fim, a fruta fica mais ecológica, podendo ser consumida por pessoas de todas as idades — afirma.

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Como as verduras são plantadas fora das estufas, a geada e outras intempéries do tempo prejudicam consideravelmente a produção de Damin.Neimar De Cesero / Agencia RBS

Damin também planta verduras, como alface e alho-poró, mas optou por uma produção menor e a céu aberto. Diferentemente das frutas, que são beneficiadas pelo frio, isso não acontece nesse modelo de plantio.

— Aqui plantamos a céu aberto, então a geada já estragou alguns pés de alface. Qualquer friozinho e ela estraga, além da pouca luz e das noites mais longas. Tudo isso prejudica, mas mantemos essa produção para ter mais variedades na feira — frisou.

No entanto, isso não impacta diretamente na renda da família. Como já estão acostumados com a rotina, tudo é adaptado ao período.

— Não sobra dinheiro, porque hoje, na lavoura, o produtor, se conseguir se manter, já é uma vitória. Mas a gente dá um jeito, aperta o cinto aqui e segue em frente. As vendas variam, mas sempre dividimos os custos e depois os lucros, e está dando certo. Eu até vendia na Ceasa também, mas depois que começaram as notas fiscais eletrônicas ficou muito complicado e desisti — comentou.

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Os pomares ficam carregados nesta época do ano. Damin consegue colher de 25 a 30 caixas por semana.Neimar De Cesero / Agencia RBS

O peso no bolso de quem compra o produto final

Conforme o coordenador de Mercado da Ceasa Serra, Renan Rech, devido ao inverno, o custo dos produtos mais comuns no verão aumenta quase 250% neste período, como o tomate longa vida. Em janeiro de 2026, a caixa de 20 quilos custava R$ 54. Já em junho, o custo do mesmo peso chegou a R$ 190 (confira a tabela abaixo).

— Dentre os quase 300 produtos que cotamos semanalmente, aqueles que apresentam maior variação, por serem culturas de risco no inverno e, por isso, cultivados em ambiente protegido, têm custo de produção mais elevado. É o caso da abobrinha italiana (soquete), pimentão (verde e colorido), tomates (longa vida, gaúcho, saladete e cereja), morango e vagem (verde e amarela). Também se destacam as culturas de cenoura, beterraba, couve-flor e brócolis, que neste período do ano apresentam alta em seus valores — explicou.

Fonte: GZH