Pesquisa de brasileiros e suecos sugere que a parte mais descartada da fruta pode influenciar corpo e cérebro; achados ainda precisam de estudos maiores

Se você é do time que joga a casca da jabuticaba fora sem pensar duas vezes, talvez seja hora de rever esse hábito. Um estudo recente, publicado no periódico Food Research International, aponta que esse pedaço geralmente descartado pode influenciar a fome, o foco e até processos inflamatórios.
A pesquisa, conduzida com 19 pessoas, avaliou o consumo diário de 7 gramas de pó da casca da fruta durante um mês. O objetivo era entender se os efeitos já observados em experimentos com animais, como melhora cognitiva, redução de inflamação e impacto no apetite, também apareceriam em seres humanos.
Ao longo desse período, exames de sangue foram sendo realizados periodicamente e mostraram que os níveis de interleucina-6 (IL-6), uma citocina pró-inflamatória, caíram de 30% a 40% após o consumo do pó da casca. Além disso, o estresse oxidativo caiu 9% no grupo. Esses dois pontos — inflamação mais baixa e menor estresse oxidativo — são marcadores importantes para a saúde cardiovascular, o metabolismo e até o envelhecimento.
Outro ponto que chamou a atenção dos pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de Lund, na Suécia, foi um aumento de aproximadamente 10% na sensação de fome relatada pelos participantes. Os autores explicam que substâncias naturais da casca da jabuticaba, como compostos fenólicos e antioxidantes, podem influenciar hormônios que regulam a fome e o processo de digestão, especialmente depois de refeições ricas em carboidratos. Em pessoas saudáveis, essa “subida” do apetite não significa necessariamente comer mais, e sim que o organismo está funcionando de forma mais afinada, reagindo melhor aos sinais que indicam que a digestão está em andamento.
Um dos resultados mais curiosos, porém, apareceu na parte cognitiva. Após quatro semanas, os participantes tiveram melhor desempenho em testes de atenção seletiva — aquele tipo de foco rápido e dirigido usado em tarefas do dia a dia, como responder mensagens enquanto cozinha ou acompanhar uma reunião longa. Uma das hipóteses discutidas é que esses compostos podem ajudar na comunicação da insulina no cérebro, favorecendo esse tipo de atenção.
Limitações
Apesar dos resultados serem positivos, os próprios autores reconhecem limitações. É um estudo pequeno, com apenas 19 participantes, todos jovens e saudáveis. Ou seja, ainda não dá para extrapolar os benefícios para outras faixas etárias ou para pessoas com condições metabólicas, como diabetes, resistência à insulina ou obesidade. Na prática, o que a pesquisa mostra é um sinal inicial de que a casca da jabuticaba pode atuar como um ingrediente funcional.
Ainda assim, os achados reforçam o debate sobre o aproveitamento integral dos alimentos e sobre o potencial de frutas brasileiras subutilizadas. Para os cientistas, estudos maiores — com outros perfis de participantes e períodos mais longos — devem investigar não só marcadores metabólicos, mas também como esses compostos fenólicos se relacionam com funções cognitivas.
E, na vida real, a aplicação é simples: além de comer a fruta in natura (especialmente quando colhida do péapo, entre setembro e novembro), vale pensar em sucos, farinhas, geleias, molhos e outras preparações que aproveitem a casca. Afinal, pode ser justamente ali que está a parte mais potente da jabuticaba.



